FABIANA E O LENHADOR PREGUIÇOSO

Por Danilo Soares Marques

Fabiana de Oliveira Munhoz nasceu no burburinho da cidade grande numa fria madrugada do mês de agosto do ano de 1996.

Seus pais, de poucas posses, fizeram o possível para oferecer à sua única filha a melhor educação possível.

Aos 23 anos uma tragédia automobilística ceifou a vida de seus progenitores, deixando-a com uma pequena pensão e o apartamento em que morava.

Mas, o destino jogava seus dados e numa bela manhã do mês de setembro recebeu uma correspondência, solicitando que comparecesse a um determinado escritório de advocacia para a leitura de um testamento.

Seu tio, dono de terras e madeireiro faleceu há poucos meses, deixando-lhe  sua fazenda e a sua vasta plantação de árvores para corte e extração de madeira, devidamente legalizada nos órgãos de defesa ambiental.

Sem entender nada do ramo de madeira, Fabiana mudou-se para a fazenda localizada no sul do país. 

Os primeiros meses foram difíceis, mas, esforçada e inteligente , aprendeu os segredos da profissão, tornando-se uma excelente administradora.

No início foi extremamente difícil lidar com os operários e seu estilo machista de vida. Aos poucos foi pegando jeito e em poucos meses estava completamente à vontade e impunha seu ritmo de trabalho, angariando o respeito e admiração de seus subordinados.

Havia na fazenda  um lenhador que não gostava de trabalhar. E isso pode soar estranho, mas a maioria dos habitantes do sul só ficam felizes quando estão ocupados com suas serras e seus machados, derrubando e serrando árvores. No outono, eles fazem canteiros na terra para as sementes dormirem. No inverno, eles derrubam árvores e serram madeira para as diversas serrarias e madeireiras da região. Na primavera e no verão, eles cavam o chão para torná-lo fofinho e aerado, deixando entrar o calor do sol e a chuva e, assim, as sementes poderem respirar, beber e crescer em direção ao sol.

Embora a maioria dos lenhadores goste de seus trabalhos, este era preguiçoso e arranjava tanto problema para se livrar das suas tarefas, que acabava gastando todo o seu tempo com isso. Ele se escondia dos outros entre as milhares de árvores que ainda não estavam prontas para o corte. Se o encontrassem, ele fingia estar trabalhando na seleção de árvores para o corte..

Ele nunca levantava uma serra ou um machado e, se precisasse fazê-lo, logo os largaria assim que ninguém mais estivesse olhando. E então ele se sentaria e ficaria sem fazer coisa alguma.

Um dia, Fabiana foi até ele, enquanto ele estava sentado sem fazer nada.

— “Que tipo de lenhador é você?”, ela gritou, com raiva. — “Por que você não cuida do seu trabalho? Essa é a época do ano em que as árvores estão na medida certa para o corte. Você não vê como os seus colegas estão ocupados trabalhando?”

— “Senhora”, —respondeu o lenhador, — “eu estava me preparando para começar a trabalhar”.

— “Onde estão a sua serra e o seu machado?”, —perguntou Fabiana.

— “Eu os perdi em um buraco fundo, que eu cavei à procura de raízes”.

— “Onde fica esse buraco?”

— “Longe daqui minha senhora, tão longe que não consigo mais encontrá-lo”.

— “Você é um mentiroso!”, —falou Fabiana. — “Não há serventia para os mentirosos nessa fazenda. Eu ordeno que você deixe as minhas terras e não volte até que resolva trabalhar direito e fazer jus ao que você ganha e come”.

Então, o lenhador preguiçoso teve que partir.  Foi para o interior da floresta e encontrou uma árvore oca por onde ele rastejou e foi dormir.

Dormiu e sonhou que quando ele acordou, a primavera tinha chegado. Seu corpo já não era mais o mesmo. Ele havia se transformado num pequeno inseto, mais precisamente, uma abelha. Ele olhou para fora do buraco para ver tudo verdinho no campo ao redor. As cores mais bonitas preenchiam o campo – rosa, amarelo, violeta, azul e alaranjado! Estas eram as flores do campo. Para cá e para lá e entre as flores voavam abelhas douradas, trazendo raios de sol para cada flor, para ajudá-las a florescer.

Elas cantavam enquanto voavam. Às vezes, elas davam as mãos e flutuavam em um alegre círculo ao redor de uma flor. Oh, que momento gostoso elas estavam tendo – cantando, dançando, deslizando, voando – e elas eram tão bonitas que o lenhador-abelha desejou brincar com elas e ser uma delas.

— “Deixe-me brincar com vocês”, — ele falou para um círculo de abelhas. -- “Deixe-me brincar também!”

— “Nós não estamos brincando”, —elas riram. — “Nós estamos trabalhando. O nosso trabalho é ajudar as flores a darem ótimos frutos. Quando elas florescem bem, nós ficamos felizes!”

Então, todas elas voaram em direção ao campo para pegarem mais pólen.

— “Bem”, —pensou o lenhador preguiçoso, — “elas são muito bobas por estarem tão felizes enquanto trabalham. Como o trabalho poderia ser tão divertido?”

 E quando ele pensou em seus colegas na floresta derrubando e serrando árvores, ficou feliz por não estar lá.

O lenhador-abelha alçou asas, saindo do seu buraco na árvore e cruzando o campo até chegar a um riacho. O riacho fluía e, chegando a uma saliência rochosa, caía e se transformava em uma cachoeira reluzente. Lá, entre as gotículas brancas brilhantes, o lenhador-abelha viu algumas abelhas que estavam subindo e afundando para aproveitar a queda d’água. Elas, também, estavam cantando e rindo com alegria enquanto espirravam a água que salpicava no ar. Que divertido deve ser brincar na cachoeira com elas! pensou o lenhador-abelha.

 — “Deixe-me brincar com vocês!”, — ele falou para elas.

Elas o escutaram, riram e responderam,

— “Nós não estamos brincando. Nós estamos trabalhando. O nosso trabalho é enviar a água para cima, em direção ao céu, até que tenha o suficiente para fazer uma nuvem de chuva bem grande e escura. Assim, a chuva cairá para ajudar as sementes a crescerem”.

Então, com uma exclamação de alegria, elas desapareceram ao longo do riacho para encontrar um outro lugar para trabalhar, deixando o lenhador-abelha sozinho.

— “Como pode ser tão divertido trabalhar arduamente?” — ele pensou. — “Eu queria encontrar algo que fosse divertido para fazer”.

Agora o pôr-do-sol e o céu azul tornavam-se mais azuis e mais escuros até que ficou quase negro. Que sentimento estranho ele teve! Ele estava completamente sozinho e muito longe de casa. Ele começou a sentir saudades da fazenda, mas ele sabia que se voltasse aos domínios de Fabiana, ele teria que pegar um machado e trabalhar para ela. Nunca, nunca! Ainda assim, seria bom ter pelo menos um companheiro.

Ao olhar para cima, em direção ao céu, ele viu algo brilhante – uma luz, muito alta, cintilante e reluzente, oh, tão longe, lá no alto. Logo outra apareceu, então muitas outras até que todo o céu estava brilhando como estrelas de luz. Enquanto olhava tudo aquilo, o lenhador-abelha viu uma nuvem de abelhas velozes voando como o vento, todas cobertas com uma luz cintilante e carregando em suas mãos montes do que parecia ser um pó prateado. Elas estavam com muita pressa fazendo lindas figuras de luz no ar.

Enquanto as abelhas voavam sobre o chão perto dele,  ouviu um zumbido delicado como o som do vento soprando entre as árvores. As abelhas estavam cantarolando enquanto voavam e em seus rostos havia sorrisos de alegria.

— “Para onde vocês estão indo?”, — gritou o lenhador-abelha. — “Deixe-me ir com vocês”.

— “Isso não é possível,” —elas responderam, — “pois nós somos seres do ar e obedecemos à uma rainha”.

— “Então, apenas deixe-me brincar com vocês”, ele implorou.

— “Oh, nós não temos tempo para brincar. Antes do sol nascer novamente, nós devemos carregar poeira estelar para cada parte do mundo. Ninguém na Terra acordaria feliz e contente se nós não espalharmos poeira estelar todas as noites”.

 E assim, elas voaram mais rápido do que nunca para realizar o seu trabalho.

— “Ninguém tem tempo para mim!" —reclamou o lenhador-abelha indignado, e ele não sabia para onde ir ou o que fazer. Surpreendentemente, ele não queria ficar parado, sem fazer nada. Então, ele foi voando sem olhar para onde estava indo e caiu dentro de um buraco fundo no chão. No fundo do buraco, ele se sentou, olhou ao redor e escutou. Por perto, ele ouviu um som: “Tic-tac, tic-tac, tkk.” Ah! Ele sabia como os machados soavam, ferindo a madeira das árvores. Então, ele ouviu algumas vozes alegres cantando,

— “Eles estão firmes no trabalho!” — murmurou o lenhador-abelha preguiçoso. — “Eles parecem felizes também, como os outros: as Abelhas do Sol, as Abelhas da Água e as outras que voavam com o vento e a luz das estrelas”.

 Então ele pensou, — “Se nós não fizermos o nosso trabalho, os outros não encontrarão nada para cuidar”.

Antes mesmo de terminar, ele estava correndo em direção ao som dos machados e o que aconteceu em seguida foi completamente inesperado. O lenhador-abelha preguiçoso voltou à sua forma humana e se juntou aos trabalhadores e pegando um machado, começou a derrubar árvores e cantar.

Fabiana, da janela de sua casa, escutava as canções e distinguiu entre elas a do lenhador preguiçoso.

Sorriu e começou a preparar um belo lanche para todos os lenhadores, satisfeita com o resultado obtido e tendo certeza que o lenhador preguiçoso nunca mais seria preguiçoso novamente.

 

                                         FIM